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Cinema Experimental Piauiense

O fenômeno do Cinema Experimental no Piauí se configurou como uma das trincheiras da "guerrilha semântica" empreendida pela juventude que questionava os padrões e discursos vigentes na época, sobretudo no recorte dos anos 1970 e 1980. A trajetória dessa produção, operada majoritariamente em bitola Super-8 mm, inicia-se de forma fulgurante em 1972. A partir disso, seguem filmes marcados por narrativas experimentais, antilineares e irônicas, que brincavam e reimaginavam os códigos urbanos e sociais. Muitos filmes utilizavam a figura do serial killer ou o terror para metaforizar a repressão policial e o sufocamento das liberdades individuais. O humor ácido e a paródia eram as ferramentas para ridicularizar o discurso oficial de "progresso" do governo. Em paralelo a isso, outros grupos experimentavam com o cinema a partir de bases teóricas de letramento cinematográfico apreendido em cursos de cinema, como os do Cine-Clube teresinense. Assim, o cinema experimental desenvolvido em Teresina durante a década de 1970 não se consolidou de forma isolada, mas a partir de redes de sociabilidade advindas de diversas frentes. Assim, há também o desenvolvimento de uma vertente documental no cinema piauiense, focada na observação de comunidades e situações pouco conhecidas e focada na crítica social direta e em problemas macropolíticos. Assim, é possível falar de grupos de cineastas e obras mais marcadamente subjetivos e anárquicos e outros grupos que sofisticaram o uso do Super-8 para a denúncia social e documentação de vivências e atividades.

Em suma, o cinema experimental piauiense foi um ato de guerrilha que transformou a precariedade técnica em potência plástica​. Frequentemente registradas na organicidade do Super-8, essas produções buscavam externalizar posições pessoais e construções que refletiam ideias políticas e protestos comportamentais, impulsionados por diferentes formas de manifestação e múltiplos significados.

O nosso repositório está dividido em agrupamentos de alguns desses contextos: Espectro Torquato Neto; Cine-Clube Teresinense, e seu "herdeiro", Grupo Mel de Abelha; e coleções de dois diretores que se destacaram pela maior dedicação e pluralidade de produção cinematográfica: Antônio Noronha e Arnaldo Albuquerque.

Espectro Torquato Neto

Da
esquerda para a direita: Carlos Galvão, Haroldo Barradas, Arnaldo Albuquerque, Etim,
Marcos Igreja, Durvalino Couto Filho, Xico Pereira (o careca) e Edmar Oliveira. De pé,
Paulo José Cunha. Foto de Carivaldo.
Fonte: Jornal Gramma, 1972.
Grupo de jovens que participou da maioria dos filmes do Espectro Torquato Neto. Da esquerda para a direita: Carlos Galvão, Haroldo Barradas, Arnaldo Albuquerque, Etim, Marcos Igreja, Durvalino Couto Filho, Xico Pereira e Edmar Oliveira. De pé, Paulo José Cunha.
Foto de Carivaldo.
Fonte: Jornal Gramma, 1972

O "Espectro Torquato Neto" engloba uma série de filmes que compartilhavam equipe técnica e proposta de ruptura semelhantes. Diferente da nomenclatura "Geração Torquato Neto", que foca no agrupamento de sujeitos (como Antônio Noronha, Edmar Oliveira e Carlos Galvão), o conceito de "Espectro" remete a uma fantasmagoria ou formação discursiva. Ele designa o conjunto de obras que se articulam às ideias e à estética defendidas por Torquato Neto após seu retorno a Teresina em 1972. No interior deste espectro, Torquato Neto não é visto como um "guru" ou líder de um movimento organizado, mas como um sujeito-signo ou arquétipo de transgressão. Em suma, o "Espectro Torquato Neto" é o nome dado a um momento de ruptura no qual a juventude piauiense utilizou o cinema doméstico como uma trincheira de resistência para "vomitar" opressões e inventar novas possibilidades de existência num Brasil marcado pelo silenciamento. O que unifica este "espectro" não é uma narrativa linear, mas uma função plástica e poética da imagem. As características comuns incluem: uso da bitola super-8mm, priorização do ato da criação e da espontaneidade sobre o produto final ou o roteiro rígido, uso do humor e da paródia como instrumento de denúncia e resistência, narrativa frequentemente fragmentária, uso da violência e a recorrência de figuras como o serial killer.

Cine-clube Teresinense e Grupo Mel de Abelha

Grupo Mel de Abelha.
Da esquerda para a direita: Luiz Carlos Sales, Socorro Melo, Dácia Ibiapina, Valderi Duarte e Lorena Rêgo.
Fonte: Arquivo pessoal de Valderi Duarte.
Grupo Mel de Abelha.
Da esquerda para a direita: Luiz Carlos Sales, Socorro Melo, Dácia Ibiapina, Valderi Duarte e Lorena Rêgo.
Fonte: Arquivo pessoal de Valderi Duarte.

Fundado em 15 de setembro de 1962, o Cine-clube Teresinense foi sediado no Colégio Diocesano São Francisco de Sales. Durante as décadas de 1960 a 1980, o CCT foi o principal centro de letramento cinematográfico de Teresina, promovendo cursos anuais divididos em módulos de técnica, gramática, história e crítica, além de gerir programas de rádio como o "Tribuna Cinematográfica" e sessões de "Cinema de Arte" no Cine Royal. Historicamente, a importância do CCT reside em sua transição de um reduto de vigilância moral católica para um celeiro de diversas correntes audiovisuais, fornecendo suporte teórico e instrumental (como câmeras Super-8 e mesas de edição) para que jovens realizadores independentes produzissem suas próprias imagens. O Grupo Mel de Abelha surgiu no final da década de 1970 e início da de 1980, sendo herdeiro direto da tradição formativa do Cine-clube e do Setor de Cinema da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Composto por nomes como Valderi Duarte, Luis Carlos Sales, Dácia Ibiapino e Socorro Mello, o grupo marcou a transição da experimentação anárquica do "Espectro Torquato Neto" para um cinema com maior rigor técnico e engajamento social. O Mel de Abelha debruçava-se sobre a realidade imediata. O nome do coletivo, batizado na sede do CCT, simbolizava o ideal de trabalho cooperativo e o elogio à cultura nordestina.

Coleção Arnaldo Albuquerque

Arnaldo Albuquerque segurando uma câmera.
Fonte: Acervo Arnaldo Albuquerque.
Arnaldo Albuquerque segurando uma câmera.
Fonte: Acervo Arnaldo Albuquerque.

Arnaldo da Costa Albuquerque nasceu em Teresina, em 25 de julho de 1952. Em 1969, aos 17 anos, partiu para o Rio de Janeiro, onde mergulhou no efervescente cenário da contracultura e do cinema marginal. Retornou a Teresina em 1971, trazendo uma bagagem de cultura popular de vanguarda que o colocou em destaque imediato. Foi o diagramador do jornal alternativo O Gramma e o "câmera oficial" de quase todas as produções experimentais em Super-8 realizadas pelo Espectro Torquato Neto e por outros diretores. Arnaldo seguiu produzindo em diversas frentes — pintura, cinema e quadrinhos (lançando em 1977 a histórica revista Humor Sangrento) — até falecer em 2015. Foi pioneiro em diversos segmentos no Piauí: primeiro chargista, primeiro a publicar uma revista em quadrinhos, primeiro a realizar filmes animados; além de participar da elaboração dos primeiros movimentos cinematográficos e dos primeiros festivais de música, humor e arte do estado. Suas obras são marcadas pelo confronto entre ícones do imperialismo cultural e elementos da tradição nordestina. Seus filmes de ficção exploravam o absurdo e o choque social. 

Coleção Antônio Noronha

 
Antônio Noronha deitado em uma rede.
Fonte: Jornal SOL, 1979.
Antônio Noronha deitado em uma rede.
Fonte: Jornal SOL, 1979.

Antônio de Noronha Pessoa Filho nasceu em 11 de abril de 1945, em Teresina (na região que hoje compreende Monsenhor Gil), no seio de uma família tradicional e influente politicamente. Sua trajetória profissional foi marcada por uma posição de destaque institucional: formou-se em Medicina em Fortaleza e concluiu mestrado em Pediatria na USP de Ribeirão Preto, tornando-se o primeiro mestre nesta especialidade a atuar na Universidade Federal do Piauí (UFPI). Além da docência, Noronha ocupou cargos públicos de relevo, como o de prefeito de Monsenhor Gil (1983-1987), Secretário de Educação e Secretário de Cultura do Piauí. Amigo de infância de Torquato Neto, Noronha transformou sua residência no quartel-general da vanguarda contestadora local, o Circuito Paralelo do Prazer (CPP), onde disponibilizava um acervo vasto de livros, revistas underground e LPs importados. Ele foi o principal viabilizador financeiro dos filmes em Super-8 do grupo, fornecendo câmeras e rolos de película. Sua atuação transitava entre o institucional e o marginal, protegendo e incentivando a contracultura teresinense. Tido por seu colega e aluno Edmar Oliveira como alguém que transitava entre a contracultura e o institucional, Noronha era capaz de, através da experimentação, contar histórias tão diversas, desde o desbunde anárquico e erótico de "O Guru da Sexy Cidade" ao documentário social e religioso com celebração da tradição em "Tio João".

INFORMAÇÕES FISCAIS

Nome: Kamila Vytória Santos e Silva
CPF: 059.400.553-11

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